O negócio é mais embaixo – MBI UFScar – Ep. 7 – Convivência Produtiva – Parte 2

 

Depois do “Jump in a Lab” da aula passada, quando visitamos a Everis, estamos de volta à Casa, ou QG da Turma de São Paulo. É sempre bom voltar ao ninho, principalmente em aulas como a da Vânia e da Lourdes. O tema da aula: “Convivência Produtiva”. Já havíamos sido avisados de que nesta aula escreveríamos um contrato, um tratado ou um pacto de convivência, que nos acompanharia durante o restante da Jornada do MBI.

Quando chegamos, descobrimos que a dupla Lourdes e Vânia, uma parceria tão poderosa quanto Hortência e Paula, Bebeto e Romário, havia feito uma tabelinha e resolveram mudar o nome para “Manifesto de Convivência Produtiva”. Eu adorei a ideia pois adoro as possibilidades de aprendizado, compromisso e engajamento que os manifestos produzem. Lembro-me quando tive contato com o Kit Educação Fora da Caixa, onde o Alex Bretas, um de meus mentores, discorre sobre o tema:

“Escrever um manifesto é fazer um chamado para a ação, seja para si mesmo ou voltado para alguma coletividade. Dos clássicos como o Manifesto Comunista até os manifestos tipográficos inspiracionais que se disseminaram pela internet, o que se mantém constante é o caráter provocativo que desafia nossas crenças de um modo ´direto ao ponto´.

(…)

Há séculos os manifestos têm sido utilizados para comunicar a essência de desejos de mudança de diversas comunidades. Zach Sumner diz da seguinte forma:

´Por fazer as pessoas perceberem a fenda que existe entre os princípios manifestados e a sua realidade atual, o manifesto desafia premissas, estimula o engajamento e provoca transformação’. (Leia este texto completo no Medium do Alex Bretas)

 

Dito isto, fica claro qual era a nossa tarefa durante a aula. Como chegamos até lá, pouco importa. Afinal, como disse Vânia: “Este é um encontro único no planeta e jamais se repetirá”. Ou seja, seria pouco proveitoso da minha parte descrever todo o processo até a criação de nosso Manifesto. Prefiro, em vez disso, fazer um percurso poético até chegarmos a ele e prosseguirei um tanto ainda depois. Creio que, no exato momento em que me encontro, preciso fazer um exercício poético. Além disso, seria pouco útil que eu fizesse apenas um memorial descritivo do encontro. Prefiro então meu tecido lírico para refletir, assimilar e extrapolar o conteúdo das aulas. Peço licença, acompanhe-me só se quiser. Lá vou eu para meu mergulho e sei que será profundo

“Permita-me iniciar com uma história – disse a Griô – Quando os indígenas subiam a Serra do Mar, no Período da Colonização, muitas vezes diziam que precisavam parar um pouco, pois a caminhada fora deveras veloz e a alma ficara para trás. Assim acontece conosco: nosso corpo chegou, mas a alma não; ficou pra lá. Façamos agora nossa aula chegar…

Foi então que lembrei-me de Bilac, a quem convoco agora:

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma povoada de sonhos eu tinha…[i]

 

Ecoa voz de Inês dentro de mim. “De lá pra cá, choramos pra cacete…”. Eu, muitas vezes, fatigado e triste, encontrei forças nas palavras de meus colegas de turma. E se a pergunta é “O que te inspira?”, minha resposta não pode ser diferente de “Vocês me inspiram”.

 

“Inspirar é pirar pra dentro.
Eu pego agora o que vem de fora
e jogo pro centro…”

 

Este “jogar pra dentro”, deixar queimar e cuspir pra fora um fogo recriado, como um dragão criativo, tem me feito muito bem, tem me dado a sensação de que possuo algum valor. Como Emicida diz em “Casa”:

 

“É quem tem valor, versus quem tem preço..”

 

 

E “(…) é diante do humano que a gente se humaniza.” Com “a alma de sonhos povoada…” as relações vão se fortalecendo. Mas Doutora Sônia, uma dessas mestras que encontrei na vida costumava me dizer que

“Laranjeira não dá banana”

 

porque “toda relação é uma relação de corresponsabilidade.”

 

                “TODA relação é uma relação de Corresponsabilidade.”

 

É importante repetir para que eu nunca me ESQUEÇA:

 

                “… toda relação é UMA relação de corRESPONSABILIDADE.”

 

E você PODE, ou/e SÓ pode dar o seu melhor e não se pode dar para o outro aquilo que o outro não pode aceitar.

 

“(…) bananeira só dá banana. Laranja não…”

 

Fique também atento para perceber quando “azedou o pé do frango”, cuidando sempre para estar consciente do que se faz com a fala. Como diz Cecília em seu Romanceiro da Inconfidência:

 

“Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil como o vidro
e mais que o são poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…”[ii]

 

Quando estamos em dúvida, a pergunta que devemos fazer é: “O que queremos conservar?”

Eis a nossas escolhas:

Alegria

Respeito
Empatia
Confiança
Amizade

 

Manifesta-se então em palavras “Ai palavras, ai palavras…”

 

Sobre um erro, uma reflexão. Percebemos, dias depois, que havia sido escrito “CONVIVÊNICA”, mas como “Aprendedores”, passamos a crer que o erro é uma oportunidade. Por isso, descobrimos que ICA é uma trombeta de madeira utilizada pelos Índios Bororo. Podemos considerar então que ConvivênICA foi a forma que encontramos que Manifestar e Comunicar todos os dias, como se pudéssemos trombetear para o mundo nossas intenções e torna-las verdade e ação todos os dias.

 

… e chegou Dona Jacira…

 

Mulher-Terra, Árvore-Mãe, tecedora de fios e palavras, contadora de histórias e fazedora de sangrias. Seu pisar na sala despertou-me a vontade do abraço e o medo da proximidade, vergonha de minha pequenez. Ela é útero que deu luz a versos e sons e rimas. Pedi seu abraço com a vergonha de uma criança, ganhei não só o dela, mas o de toda minha ancestralidade perdida. Revivi meu pai, que assim como seu marido, morreu no dia em que nasceu. Meus tios, meus avós do Macuco, vindos de Ceará, Paraíba, Minas e sei lá de onde mais, tirados de África ou do meio da aldeias e matas dessa terra. Sua fala “Eu tinha um livro sangrando dentro de mim”, abriu-me um buraco, tocou-me no peito, fez-se outra vez o encanto. Dona Jacira abriu um silêncio no meu peito.

 

um chão
de terra
um pé de feijão
fios e letras
palavras
desejo
o dedo que esfrega a mão
supõe coceira
depois descobre
e ódio é vulcão
os filhos vão
voltam
estendem os braços
“vai, véia! é sua vez”
mesmo sangrando
“Café” se fez…

 

Acabou… Uma foto, um encontro no bar. Um pouco de papo, um abraço em todos, outro aperto em Dona Jacira. O desafio da turma cumprir o escrito à risca. Manifestou-se em mim o desejo de meu próprio Manifesto de Inovação Pessoal.

 

não sou só…
…não sou só palhaço…
…só professor…
…aprendedor…
…artista…
…de negócios…
…criativo…
Inovador.
sou empresa-homem
que quebra
e quebrou
que sonha
e sonhou
que cria
na esperança
de um dia
que breve seja
esteja melhor
do que agora estou
que poesia
e encanto
sorriso e abraço
beijo na testa
paguem a conta
da festa que se fez
do carrinho de mercado
do churrasco de domingo
da conta vencida
do boleto atrasado
e que meu canto
não seja lido
como lamúria
é mais um grito
é rejeição
com fúria
desejo de mudança
vontade de transformação
é guerra declarada
por situação errada
– brado por inovação-
Não sou só.
Ofereço
Olhar criativo
Que julgam incrível
Visão Metafórica
Métrica Intangível
Trabalho com preço
Valor Bem Maior.
Não sou só
aceito a mudança
espero
MEREÇO
entrego
aceito
confio
e agradeço.
Me movo
Inovo
Do duro
Da casca
Ao mais mole do ovo.

Seja empregado

emPrecário
empreendedor
empresário
no emprego
prego
desprego
apego
e desapego
do medo
do salário
atrasado
do investimento
perdido
do job negado
da resposta esperada
da venda perdida
Não sou só.
Sou só
desejo
de inovação.

 

Obs: O texto de hoje vai sem fotos da aula. Prefiro que vejam o invisível. Desculpa, Ramirez! Os créditos delas serão sempre seus…

[i] Poema No meio do Caminho, de Olavo Bilac

[ii] Poema Romance LIII ou das Palavras Aéreas de Cecília Meireles

 

O negócio é mais embaixo – MBI UFScar – Ep. 6 – Emergência 4.0

Mais um encontro com esta turma linda. Como era véspera de dia dos pais, muita gente não estava presente. Para quem não foi à aula e ler este texto, saiba que senti a sua falta. Também peço para que, ao ler, diga para mim se foi possível entender superficialmente o que foi discutido.
Beijo na testa e vamos lá!

“O Prólogo” ou “De como mergulhar num laboratório de inovação pode me tirar da era das cavernas.”

Zare buscando chamar a atenção da galerinha da 5 º Série MBI, toda animadinha depois das férias. Foto: Ramirez D´Melu

Depois de um mês longe dessa turma apaixonante, cativante, impressionante, refrigerante, desodorante, amaciante e elefante, retornamos das férias direto para a experiência “Jump in a Lab”, como o Zare, nosso coordenador costuma dizer. Ou seja, a aula deste sábado seria dentro do laboratório de inovação de uma empresa.

O local escolhido foi a Everis, empreendimento global fundado por 4 espanhóis e, depois, comprada por um japonês. Empresa de consultoria e soluções em tecnologia para diversos setores, onde o Helio Fischer, incrível colega de turma, é gerente. Eu, que sempre trabalhei em escola, da província do ABC, confesso que fiquei encantado só com a estrutura do espaço. Eu sentia como se não estivesse no Brasil. Mas estava com meus colegas de turma, então a sensação era a de ir para uma “saída pedagógica”. Eu estava na Disney e queria aproveitar todos os brinquedinhos do parque. A turma toda estava animada, aliás, nosso clima de 5ª série, talvez pela saudade, nunca esteve tão à flor da pele.

Começamos a aula com uma apresentação feita pelo Roberto Pereira e pelo Helio sobre o funcionamento da Everis e como a inovação ali dentro acontece. Precisei sair para buscar papel toalha para enxugar a boca porque era tanta baba que caía… Descobrir o que acontece lá dentro e como a empresa realmente investe em inovação, foi muito impressionante para mim, já que não tenho contato com este tipo de realidade. De certa forma, me senti um “homem das cavernas”, mas peço calma, isso não é um sentimento ruim. Adoro ter a impressão de que não sei nada a respeito de algum assunto, já que isso me dá toda a oportunidade para aprender mais a respeito. Também tenho a possibilidade de refletir sobre meu próprio processo de inovação nos ambientes onde atuo.

Duas coisas ditas pelo Paulo ecoaram dentro de mim. A primeira dela é que “Inovação não se faz sozinho; é preciso um ecossistema…”. Acho que essa é uma das minhas maiores dores em relação à inovação dentro do ambiente educacional. Como é difícil encontrar um ecossistema onde a inovação é possível, minha Nossa Senhora da Disrupção! Mas como eu sou teimoso, ranzinza e chatão “prá catano”, como diriam meus antepassados, eu sigo tentando encontrar meus early adopters e enquanto não encontro meu ecossistema, eu sigo abrindo espaço na mato a facadas. O Paulo também falou sobre o “Vale de Desespero”, momento pelo qual costumam passar os processos de inovação. Trata-se de um período em que o crescimento é pequeno e nada parece estar acontecendo e aparentemente não há evolução. É tão legal quando a gente descobre que as coisas pelas quais a gente passa têm um nome… Ufa… Sinto-me mais aliviado e pronto para continuar minha jornada de inovação…

Mas antes eu não posso deixar de falar sobre algo que vi lá dentro e, acredito, materializa muito da minha impressão e o fato de meu queixo estar cheio de hematomas, já que várias vezes, nesta curta conversa, tive que resgatá-lo do chão, pois ele havia caído. O Helio apresentou um produto inovador e impressionante chamado “Morpheus”, um sistema de monitoramento acoplado num boné, que monitora as ondas cerebrais dos motoristas e trinta segundos antes do condutor dormir ao volante, um sinal é emitido para que ele acorde, faça uma pausa, tome um café, descanse e retome e viagem de maneira segura. Ainda em fase de testes e projetado a pedido de uma grande empresa do ramo de bebidas, este produto magnífico é capaz de reduzir o número de acidentes causados por se dormir ao volante. A pesquisa também conseguiu mapear locais onde há maior incidência de sono nas estradas. É para ficar embasbacado ou não é?  E pensar que um colega de turma está a frente de um projeto desses. Quando eu falo que estudo com gente incrível, as pessoas acham que é exagero…

Era tanta informação nova que eu já estava quase em tela azul. Se eu estivesse usando o Morpheus, receberia a mensagem: “Excesso de informação. Faça uma pausa agora ou o sistema entrará em falha crítica!”

Fizemos então uma pausa. Respirei fundo, tomei um café, mas por dentro, ainda continuava: “Mano do céu, você viu aquilo?”

Apresentação da Everis, feita pelo Paulo Pereira e por nosso colega de turma Helio Fischer – Foto: Ramirez D´Melu


“Lançamento do Módulo Internacional” ou “A China é logo ali” ou “Vou ali sacar uns dólares pra viajar”

Algum de vocês aí sabe onde um homem de quase 40 anos pode vender seu corpinho para ir para a China?

Quanto mais eu ouço falar do Módulo Internacional, mais eu me pergunto: “Meu Deus, o que eu faço para ir nesse trem bala, parceiro? Eu sou só passageiro prestes a partir…”

Eu quero comer o pato e ir nesses lugares que são apresentados, cara! Tô aqui bolando como é que eu arrumo 15 doletas pra

fazer essa viagem. Volto a dizer que se alguém souber onde eu vendo meu corpinho… Tô às ordens! Enquanto isso, volta para a realidade, Varleizinho!


“Emergência 4.0” ou “Bora lá dar tela azul neste menino”

Jan Dinz, o Samurai Exponencial apresentando-se à turma – Foto: Ramirez D´Melu

Em primeiro lugar, já quero deixar aqui registrado que normalmente meu “balelômetro”, meu sensor de balela, costuma apitar freneticamente quando ouço termos como trêspontozero, quatropontozero e cincopontozero. Costumo ter a impressão de que quem escolhe estes números, faz uma escolha sem critério, só para querer dar uma ideia de que é algo inovador ou revolucionário. Uma banalização bem ao estilo “Reprogramação de DNA Quântico”. Mas como aprendi na Imersão em Teoria U, é importante esvaziar-se, abrir mão do julgamento prévio, abrir o coração e refinar o estado de presença. Dei uma boa respirada antes da abertura da fala do professor. Antes de apresentá-lo, já garanto. Neste caso, o 4.0 faz todo sentido.

O Zare fez a introdução e nos apresentou à fera do dia. É impressionante como cada professor que chega, eu penso: “Agora não dá pra ser melhor do que isso…”, mas sempre dá. Fomos apresentados ao incrível JAN DINIZ, O SAMURAI EXPONENCIAL. O cara já ganhou meu coração contando sobre a experiência de inadequação dele ao ambiente da universidade e sua reflexão sobre a quantidade de jovens que não termina o Ensino Médio. Ele é um uma das pessoas à frente de várias empresas, algumas delas relacionadas com o Empoderamento Jovem.

JAN é realmente um Samurai, ou “homem que serve”. Sinto-o comprometido com um mundo melhor, com a transformação do planeta. Sua espada é a tecnologia. Implacável e destemido, ele nos conduziu a seu “Dojô Fractal”, um santuário sem espaço físico, onde através da cultura da “Aprendizagem Rápida” e da “Confiança Criativa”, iniciou seu treinamento. Como um “Mestre Miyagi”, foi nos levando a conhecer a ideia da “Entropia”, a perda de energia de um sistema. Segundo ele, tudo aquilo que estamos vendo é informação cristalizada. Num caminho contrário ao de Marin de Águia, ao ensinar Seya a explodir seu cosmo para destruir os átomos, JAN nos estimulou a olhar o mundo e as coisas em busca das informações cristalizadas ali presentes. E acrescentou que à medida que fomos evoluindo enquanto seres humanos, aumentou nossa capacidade de cristalizar informações. Desde Zarevile, onde Igor, Karine, Inês e Bruno agora adicionaram complexidade à maçã transformando-a numa maçã do amor, até o advento da Locomotiva a Vapor, que aumentou o raio de encontro com informações distintas em Zarevile, metáfora para a Primeira Revolução Industrial, passando pelo surgimento da linha de montagem, Segunda Revolução, até o surgimento do Computador, Terceira Revolução Industrial.

Ou seja: o conceito de 4.0 se aplica ao assunto da aula, já que falaríamos da próxima revolução, a única revolução anunciada até agora. E é por isso mesmo que andamos todos preocupados, porque sabemos que ela está acontecendo e ela aumenta drasticamente e quantidade informação e complexidade das coisas. Isso nos dá a impressão de que estamos perdendo o controle ou, como nas palavras de Nadim, hoje como Bardo e Menestrel de Zarevile diz em sua Cantiga Satírica, “O porrílhão está descontrolado…”

O treinamento estava pesado. Era preciso uma pausa para repor as energias. Eu já tinha dado tela azul. “Cara, é muita informação. É tanto termo técnico. Relaxa de querer entender tudo agora. Joga a informação para dentro e acredita que logo ela vai se organizar e lembra da mensagem do Jan: ‘Tá tudo na Gambiarra. Todas as etapas de inovação estão lá dentro.” Um professor bom tem essa capacidade: simplificar um assunto complexo numa metáfora poderosa. Arigatô, Sensei!


“Controlando o Porrilhão?” ou “Refinando o treinamento”, ou ainda “A código de ética de um Samurai Exponencial”

Depois de um almoço delicioso, um papo bacana sobre o ITalks do MBI com a Thais e um momento de composição com o Menstrel Nadim, onde começamos a escrever os primeiros versos uma canção que podemos terminar em até dois anos, voltamos ao Dojô Fractal para a segunda parte do treinamento com o Sensei Jan. HAI!

Nesta segunda etapa do treinamento, fomos apresentados aos conceitos de Internet das Coisas, Inteligência Artificial e Big Data. Não vou me ater aos termos e a suas definições aqui. Quem lê este texto ou é aluno do curso ou é curioso o suficiente para entender melhor sobre eles naquele sitezinho que responde tudo chamado Google.

Sobre isso, vale dizer que estamos acostumados a pensar de forma linear e a revolução que está emergindo vai nos obrigar a pensar de maneira exponencial. E não estamos acostumados a pensar desta forma, não estamos acostumados a agir desta forma. Para tanto, para que sejamos todos, assim como Jan, Samurais dessa Era Exponencial, é preciso estarmos atentos a novas exigências éticas deste momento. Como estar atento aos padrões reconhecidos e criados pelos algoritmos? Como refinar e deixar mais eficiente o “Departamento de Vai-Dar-Merda?”, que percebe falhas nas variáveis nas interpretações das informações em Volume, Velocidade e Variedade nunca antes percebidas? Como equacionar a tensão entre o que se quer e o que se tem hoje?

Todas essas questões, todas informações talvez tenham me tirado da faixa branca, mas dominar esta arte é uma tarefa de todo dia, é um caminho prático. Você já viu alguém virar mestre em caratê apenas lendo livros? Pois é. Eu vou lá fora então, lidar com esse mundão, lidar com toda essa informação, e me organizar no meio do porrilhão. Tô imaginando que, mais do que controla-lo, precisamos saber como ele flui.

Nos últimos 10 minutos da aula, acabamos falando por cima de “Educação”, assunto que me apaixona é que é o meu Mitie (olha lá, Thaís). E quando falamos de tecnologia neste setor, lembro-me muito de um tópico Manifesto 15, documento internacional do qual eu sou signatário e embaixador que diz:

  1. Se “tecnologia” é a resposta, qual era a pergunta?

 Parecemos ficar obcecados com as novas tecnologias mesmo sabendo pouco sobre para que servem ou sobre como podem ter impacto na educação. As tecnologias são ótimas para fazermos aquilo que temos feito melhor, mas usar as novas tecnologias para fazer as mesmas coisas antigas na sala de aula é uma oportunidade perdida. Os quadros negros foram substituídos por quadros brancos e por quadros interativos, os livros por iPads. Isto é como construir uma central nuclear para alimentar uma carroça. E, no entanto, nada mudou: ainda continuamos investindo imensos recursos nestas ferramentas  e a desperdiçar a oportunidade de explorar o seu potencial para transformar o que aprendemos e como o fazemos. Ao recriar as práticas do passado com as tecnologias, as escolas concentram-se mais em gerir hardware e software do que no desenvolvimento das capacidades intelectuais dos estudantes e no uso significativo destas ferramentas.

E por aí, vamos nós…

O negócio é mais embaixo – MBI UFScar – Ep. 5 – Autobiografia

Narizes vermelhos, olhos molhados, ouvidos atentos a bocas fofoqueiras

A carta de um gauche a seus colegas de turma

Carlos Drummond de Andrade, em seu Poema de Sete Faces diz: “Quando nasci, um anjo torto, /desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! seu gauche na vida…”. Lembro-me de quando fui apresentado pela primeira vez a essa palavra de origem francesa, que significa “esquerdo”, mas costuma ser usada para definir alguém que se sente estranho, deslocado, diferente, desajustado. “Nossa, é assim mesmo que eu me sinto…”

A sensação de desajuste e estranheza perante o mundo nasceu muito cedo em mim. O “Nhenhenho”, o pequeno Varlei magricela e chorão, que abria o berreiro vestido de Rambo ou de Shazam, olhava o mundo com olhos estranhos. Mais tarde, na adolescência, ao som de Eu era um Lobisomem Juvenil, repetia “Se o mundo é mesmo
Parecido com o que vejo / Prefiro acreditar/No mundo do meu jeito (…)”. Quantas vezes eu me sentia e fui até apelidado de E.T.?

Aos poucos, fui encontrando meu lugar no mundo. Fui descobrindo que “fazer parte de algo especial, te torna especial também.”, fui descobrindo vários lugares em meio a tantos (des)lugares do planeta. O sentimento de inadequação nunca deixou de existir. Vez por outra, ele vinha e re-vinha, quase como num jogo de esconde-esconde. As coisas começaram a melhorar quando fui apresentado a uma tecnologia ancestral e inovadora chamada “Nariz Vermelho”. Os (des)lugares do palhaço e sua aceitação da própria inadequação me fizeram alguém mais feliz. Não porque o “palhaço é alegria”, como muitos enxergam; mas porque para mim o palhaço é a alegria de ser quem se é.

Ainda assim, algo me atormentava: o mundo “das exatas”, o ambiente “corporativo”, “empresarial”, “técnico” e pragmático. Confesso que sempre senti medo e fascinação por estes ambientes. Algumas pessoas diziam: “o que você faz, serve para as empresas” mas como ser da educação, da arte, da poesia e da subjetividade, acreditava que não me encaixaria neste ambiente, que não seria aceito, julgado, engolido porque muita gente me dizia que dentro das empresas “era um querendo engolir o outro”.

Mas aí surgiram vocês. Veio a oportunidade e eu, que nunca me imaginei fazendo um MBA, estava diante de um MBA do Futuro. E lá fui eu, com o coração saindo pela boca, me pelando de medo como quem vai saltar de paraquedas, mas já começa por um Base Jump. Quando cheguei, cada um de vocês enrolando o paraquedas com tanta desenvoltura que fiquei sem jeito. Mas pensei comigo: “Quer saber? Bora lá. Seja você mesmo e se o paraquedas não abrir, do chão não passa…” Eu me joguei e o paraquedas abriu. E mesmo sem saber, vocês me pegaram pela mão, me ajudaram a conhecer melhor meu equipamento e me jogar com segurança. Melhor que isso: senti que não importa se meu equipamento é diferente. Aliás, o fato de ele ser único, com seus defeitos e qualidades, faz meu salto ter valor.

O curioso é que o momento em que tudo isso aconteceu, foi um momento importante. Eu precisava, eu realmente precisava reencontrar, resgatar, redescobrir o meu valor este ano, em face dos últimos acontecimentos. Mais curioso ainda sentir, perceber a aprender tudo isso num ambiente não usual. Sempre achei que me sentiria mais aceito no ambiente do teatro, do teatro estudantil e da educação. E não é que eu não me sinta aceito nesses locais. Mas jamais imaginava sentir isso com tamanha potência num ambiente relatado anteriormente por amigos, como um ambiente de pessoas mais frias e extremamente técnicas.

Eu passei a sentir tudo isso muito cedo. Desde a segunda aula, percebia-me conectado às pessoas, interessado em suas histórias, animado por ter a oportunidade de conhecer um novo vocabulário, à vontade para falar em metáforas, recitar poemas, apresentar folhas rasgadas como obra de arte. Tudo isso já teria sido muito especial, mas com a atividade das autobiografias, o sentimento de conexão, o encantamento e a admiração por essa gente que eu mal conheço, só se fez aumentar.

Fui convidado a compartilhar minha vivência em palhaçaria. “Como reagiriam? Estariam abertos à prática?”, pensei com meus botões. Imaginei que poderia ser bom, mas jamais poderia imaginar o carinho com que fui recebido, o quanto fui respeitado, o quanto senti todos saltando de Base Jump, num universo desconhecido. O carinho e a emoção do “beijo na testa” que pensei só funcionar com pessoas “da minha área”, fizeram com que eu me sentisse como me sinto com as crianças: amado, respeitado e admirado.

Mas isso ainda era pouco. No restante da aula, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais das histórias de cada um, além de poder fofocar um pouco sobre cada história. Pode uma fofoca ser positiva? É claro! Se ela for apreciativa e servir para compartilhar com todos aquilo que se descobriu. E neste momento, ao ver os olhos mais uma vez molhados, ao perceber as lutas, as dores, as dificuldades e as conquistas que nos levaram até aquela sala, senti-me privilegiado, uma pessoa de sorte. E o resto de pré-conceito que eu, assumo, tinha, desapareceu.

Com narizes vermelhos, olhos molhados, ouvidos atentos e bocas que fofocavam, pude conhecer melhor cada um de vocês e sentir que somos diferentes sim, mas todos nós um pouco desajustados, inadequados, estranhos… E sou tão grato por isso. Grato por ter a oportunidade de viver tudo isso com vocês. De ter a oportunidade de ser eu mesmo e ter a sorte de também ver cada um ser sua própria essência. Sairei deste curso, alguém muito melhor que entrei.

Zare, muito obrigado pelo Texto-Manifesto por um mundo com Palhaços Aprendedores. Thais, obrigado pela disponibilidade e por fazer as coisas acontecerem. Michele, Giovanna, Ramires e todos da equipe, presentes em São Paulo ou não, obrigado!

Obrigado, Amanda, André, Andressa, Bruno, Claudio, Desirée, Gabriela, Pedro, Helen, Hélio, Heloisa, Inês, Igor, Julia(S), Karina, Karinne, Murilo, Nadim, Paulo, Giuliana, Barud, Carolina, Titi, Pio, Thielly, Tiago, Vanessa, Vitinho, Vitor, Estefânia, Monique, JK, Paixão e Carol Gavazzi.

Vocês fazem o palhaço sorrir!

O negócio é mais embaixo – MBI UFScar – Ep. 4 – Imersão em Teoria U

De volta com meus registros não-acadêmicos de minha Jornada de Aprendizagem no MBIUfscar. Confesso que estive procrastinando todo este tempo. Mas como eu não quero ficar atrasado, vou atualizar o blog antes da próxima aula.

Nos dias 28, 29 e 30 de junho, estive na Floresta Nacional de Ipanema, fno município de Iperó- São Paulo, onde estavam reunidas as turmas de São Paulo, Sorocaba e São Carlos para a Imersão em Teoria U,  um conjunto de teorias, ferramentas e práticas que podem auxiliar os líderes a enfrentarem os problemas atuais, não apenas intelectualmente, mas através de ações que gerem inovação. Criada por Otto Scharmer, professor do MIT, esta tecnologia social, de forma simplificada segue as seguintes etapas:

  1. “sentir: questionar profundamente seus modelos mentais, vendo a realidade que está além do próprio filtro;”
  2. “presenciar: mover-se dali para um processo profundo de se conectar com uma visão e um propósito, individual e coletivamente;”
  3. “realizar: e então elaborar rapidamente um protótipo para traduzir essas visões em modelos de trabalho concretos, dos quais se possa receber feedback e fazer novos ajustes”.

Fonte: https://co-labore.net/teoria-u-um-caminho-para-inovacao-e-lideranca/

Eu poderia fazer um post muito longo explicando mais sobre o conceito, mas acredito que a Teoria U precisa ser experimentada, vivida para só depois ser compreendida. Confesso que ainda ruminando toda a experiência, que foi fortíssima e sinto que não estou ainda em condições de escrever a respeito. Mas tenho colegas de turma incríveis. Um deles, meu querido Nadim Maluf, o homem que jamais morrerá, escreveu um poema lindo, com referência e ritmo de cordel. Então, dessa vez, dou espaço a seu texto, que fala muito sobre o que sentimos e vivenciamos neste final de semana.

Meu amigo, obrigado por me salvar dessa vez.

Com vocês, um Cordel de Mente, Coração e Vontade Aberta, por Nadim Maluf.

Vai lá, rapaz! O microfone é teu!


Ser louco nesse mundo
Requer talento e atenção
Pra ser firme no propósito
De diferir de qualquer óbvio
Pra achar seu próprio ópio
No pensamento mais profundo.

O caminho pro outro mundo
Se mostrou mais acessível
Quando a gente, em conjunto
Numa roda cheia de assunto
Se mostrou mais disponível
Pra entrar cada vez mais fundo
Numa escuta de outro nível

No início dessa trilha
Dê terra, grama, árvores e urucum
Sexta feira foi de estrada
Pra uns, apenas um pouco
Pra outros uma jornada

Na chegada, antes das seis
Me deparei com a lua rindo
Era a fase da minguante
Como se naquela hora
Algo lindo fosse embora
Pra nascer no horizonte,
Algo novo e diferente
Na luneta do almirante.

Chega então a bela hora
De unir cada cidade,
Cada estado e cada prosa.
Em volta de uma casinha
Ainda com uma vergonhazinha
De mostrar toda sua cara
Pra esse monte de gente nova.

Já no outro dia
Com coragem de umas preguiça
Fomos logo pela manhã
Aprender um novo mantra
O tai Chi que não é Chi
Tem um nome diferente
Pra complicar a nossa mente
Com a Anja a corrigir.

Segue o dia, dia a frente
Era hora do tatame
Subir nele era um sufoco
Era como se um louco
Brincasse de estátua
Dando vida ao sentimento
Que ali na sua mente
Era onde povoava.

Cedo ou tarde eu esperava
Que aquela teoria
Ainda que estranha
Se fizesse aparecer
Transformada em prazer
Ou no no início de uma estrada

Que caminho se formou
Dois a dois em caminhada
Pra contar da nossa vida
Em minutos pequeninos
Que precisam de um moinho
Como forma de arrancada
Pra deixar essa jornada
Um pouco mais iluminada.

Descobri que é mentira
Deslavada e sem cabeça
Que só maluco doido varrido
Tem a chance de ser curado
Pois foi naquela clínica,
Na clínica de caso
Que discutimos nossas vidas
Com o coração bem apertado
Até achar um resultado
Em opiniões bem divididas.

Sigo a fala eloquente
Pra dizer que fui feliz
Proque no fim desse sábado
Mais do que no carnaval
Se festojou a união
Cheio de chopp paçoca e quentão
Ao som de um forrozim
Pra ninguém ficar sozim.

Foi a vez da alegria
E da leveza dos violões
Foram 2, por três tocados
Com os dedos naquele estado
Do frio que ali pro fundo
Se fazia perpetuado

No domingo, dia cheio
Era como se ali no meio
Florecido estivesse
Um campo que hoje só cresce
De atenção e de escuta
Que fomenta a nossa luta
Em adição a nossa prece

Te conduzo para o fim
Como se  lá na flona  estivesse
Não posso citar nomes
Já que injusto eu seria
Falo então em confraria
Como se no MBI
Cada um tivesse achado
Um pedaço da família

Faça agora, e da qui pra frente
Jus à tudo que aprendeu
Corra os cantos desse mundo
Faça tudo que puder
Pra mostrar pra quem vier
Que ouvir mais que falar
É a solução pra quase tudo!

O negócio é mais embaixo – MBI UFScar – Ep. 3.2 – Megatrends

Como registro da segunda aula com o grande Peter Kronstrøm, resolvi tentar aplicar o mesmo método apresentado por ele, que busca a criação de quatro cenários baseados nas escolhas de duas tendências, na criação de polaridades com base nelas e incertezas críticas. Segue a tabela com as incertezas e polaridades que eu criei e depois os eixos que levaram a quatro cenários possíveis. Antes de tudo, vale lembrar um pouco sobre o assunto da aula anterior.

MEGATRENDS são 14 macrotendências mundiais, que se subdividem em outras tendências. Com base nelas, pode-se fazer estudos sobre futuros possíveis e prováveis, desenhando cenários que podem ajudar as organizações na tomada de decisões. Repare que a palavra “futuro” está propositalmente no plural.


É uma forma de aliar ciência e arte. É um exercício de imaginação, muito mais do que previsão ou análise divinatória. Segue um slide do Room Memories, material preparado pela equipe que acompanha o MBI.

Obviamente, me interessa realizar um estudo sobre futuros da educação. Escolhi portanto este tema e duas Megatrends que acredito podem ter impacto neste segmento. As tendências escolhidas foram “Individualização” e “Sociedade do Conhecimento”. Apliquei a “Análise Pestal”, observando o assunto sob a ótica Política, Econômica, Social, Tecnológica, Ambiental e Legal, chegando a algumas questões chave. Com ela, criei uma tabela de incertezas e polaridades que e depois os eixos que levaram a quatro cenários possíveis, como nas imagens abaixo.


Escolhi por um sistema de rolagem de dados, este cenário para a criação desta narrativa. Se você for meu colega de turma, te convido a escrever um outro cenário deste quadrante. Quem sabe não teremos todos eles descritos?

Antes de começar, vale apresentar algumas orientações que segui para a criação deste cenário.

SETE CARACTERÍSTICAS PARA BONS CENÁRIOS FUTUROS

História: Uma descrição vívida é fundamental para envolver todos os participantes neste novo mundo

Poder de decisão: fornecer insights úteis para a questão em consideração

Plausibilidade: o futuro deve ser possível

Consistência: deve ser logicamente consistente

Diferenciação: deve ser estruturalmente ou qualitativamente diferente

Memorável: fácil de lembrar; ajuda a ter títulos atraentes


Vamos então ao cenário, não sem antes apresentar a vinheta do nosso Mestre Peter, o Cavaleiro do Apocalipse (Revelação)

 

Blackmirror: Megatrends Season – Episódio 2 – “Para quem?”

Você pode ler ou ouvir a transcrição do episódio em áudio clicando abaixo. 

Permita-me que apresente: Meu nome é “Varlei Freeze – a sua geladeira inteligente”. Alguns me chamam de Harley, outros de Marley, outros de coisas que nem eu mesmo entendo. Eu não ligo para isso. Embora meu sistema de Inteligência Artificial já tenha me ensinado algumas emoções básicas, considero essa confusão dos humanos como “ossos do ofício”, embora essa seja uma expressão do mundo dos humanos que eu não consigo entender ainda. Desculpa.

Sejam bem-vindos a 2034. Eu serei sua cicerone neste nosso mundo e apresentarei a vocês nosso cenário educacional atual. Sou a geladeira da Dona Stefânia Tavirbek, uma dedicada Professora Universitária e Consultora Empresarial, mãe da jovem Andressa Laina Tavirbek, uma adolescente de 15 anos, nascida e 2019 que viveu todas as mudanças do sistema educacional que serão aqui apresentadas.

Para entendermos melhor o contexto vivido pela jovem Andressa, é importante voltarmos ao ano de nascimento da menina. Em 2019, uma grande manifestação de estudantes universitários iniciou um processo de grandes e abruptas mudanças no âmbito da educação. Por conta de um corte, dizem alguns, outros, contingenciamento de verbas públicas destinadas às instituições de ensino superior federal, uma onda de manifestações contra o Governo e o então Ministro da Educação tomou conta do país. Os protestos foram cobertos de perto pela âncora do “Jornal Hoje” Karine Exoyaak, que por conta de suas análises e críticas feitas a gestão vigente, foi demitida a pedido do Ministro da Educação, que pediu sua cabeça à direção da emissora, acusando-a de ser comunista.

Motivada por este ataque político, Exoyaak iniciou então uma carreira de Youtuber, onde de forma independente, passou a cobrir o movimento em prol de uma nova educação. Na estreia de seu canal, a renomada jornalista contou com a presença de Tábata Amaral, uma jovem deputada em primeiro ano de mandato, que posteriormente viria se tornar senadora e candidata a vice-presidente na chapa de Ciro Gomes, que nunca viria a ser eleito presidente da república. Tábata era, na época, uma das maiores referências na luta de uma educação de qualidade, debate que passou a ganhar espaço nos anos seguintes.

A situação da educação permanecia em forte declínio, a despeito dos debates e reivindicações feitas por professores e estudantes. O absenteísmo de professores atingiu taxas muito altas na maioria das escolas públicas de ensino fundamental e médio. Muitos professores mantinham sua extenuante jornada de trabalho a base de ansiolíticos e antidepressivos. Os salários baixos, a falta de condições de trabalho, as salas superlotadas e o sistema previdenciário desfavorável causaram o abandono de milhares de cargos de trabalho principalmente nas escolas públicas periféricas. Campanhas de incentivo nas televisões on demand e na internet buscavam estimular jovens a escolherem a educação como carreira, algo que entrou em sério declínio. Muitas faculdades foram obrigadas a fechar seus cursos de licenciatura, outras ofereciam-nos gratuitamente, com pouquíssima adesão.

Observando o cenário da época, o então Governador do Estado de São Paulo, que depois viria a ser eleito presidente, apresenta no ano de 2020 o Plano de Apoio Urgente, o P.A.U., que tinha as seguintes premissas: 1. Grande parte do declínio na qualidade era de responsabilidade dos professores; 2. Para resolver o problema, professores com grande número de faltas e casos de doença psicológica não comprovada, seriam exonerados; 3. Professores com notório saber, sem a necessidade de formação seriam contratados de forma emergencial para atender à demanda das escolas em situação mais grave. 4. Um algoritmo que monitora a ausência de professores e direciona automaticamente professores substitutos para as unidades com demanda é anunciado e lançado nos anos seguintes.

As medidas do governador foram extremamente criticadas por grande parte dos especialistas, mas em contrapartida, foram apresentadas numa live em que o governador apresentava o que chamava de Sucesso Estrondoso de sua iniciativa. Embora tenha havido manifestações de professores e estudantes, que foram coibidas com energia pelas tropas de choque no Governo, a gestão continuava acreditando que o P.A.U. havia mudado a rotina das escolas. “Em escolas onde aplicamos o P.A.U. nos professores e nos alunos, não há mais bagunça e os alunos estão estudando.”, afirmava o chefe do governo estadual. Por outro lado, especialistas afirmavam que as medidas do governador haviam criado a “Uberização da Educação”, tornando a situação dos profissionais ainda mais precária e mascarando a presença nas escolas com um ensino de qualidade duvidosa.

Nesta época, a pequena Andressa era uma criança que frequentava uma creche privada, paga com muito esforço por sua mãe, que trabalhava em jornada tripla e fazia uma pós-graduação em inovação durante alguns sábados. Foi onde ela conheceu sua amiga Heloísa Laborgne, empresária conhecida do ramo de alimentos, amizade que perdura até hoje.

Sobre a educação privada, a propósito, é importante salientar que este setor seguiu um caminho diferente do público. Com a agravamento da situação da carreira docente, as grandes instituições de ensino da elite passaram a realizar planos de carreira e salários atraentes para os poucos profissionais qualificados que restaram, gerando assim captação e retenção dos talentos que sobravam. O setor passou a ser cada vez mais agressivamente competitivo, o que auxiliou a criação e o desenvolvimento de diversas metodologias, que não só aumentavam a qualidade dos serviços prestados, mas potencializavam os resultados em provas e índices internacionais, ampliando a disparidade entre alunos de escolas públicas e particulares. A última onda a surgir, após uma série de estudos foi a “Educação Customizada”, que através de uma combinação de ciência de dados, estudos genéticos, estatísticas e estudos antropológicos, investigação dos talentos, competências e habilidades de cada indivíduo, planejava-se uma trilha de aprendizagem que, ao mesmo tempo, potencializava o que a criança ou jovem tinham de talentos ao mesmo tempo que sanava suas dificuldades. Era praticamente impossível existirem duas trilhas de aprendizagem completamente iguais.

“Sabemos que a qualidade da escola privada hoje é melhor, então não achamos justo impedir que pessoas mais pobres coloquem seus filhos no ensino privado”, assim disse um nome emergente na política nacional durante esta época. E motivado por esses acontecimentos, entrou em vigência no final de 2022, no mesmo estado, um sistema de vouchers que dava a oportunidade de alunos “bem ranqueados” de frequentarem instituições particulares, o que alavancou a eleição do Governador Paulista, mesmo com os baixos índices de qualidade da educação pública de sua gestão.

É neste cenário em que a jovem Andressa estuda numa instituição privada de ensino, com educação customizada de qualidade, privilégio do qual nem todos jovens de sua idade gozam. Foi nesta instituição que Andressa conheceu sua melhor amiga, Júlia Bektar, jovem bem ranqueada nas escolas públicas que, pela primeira vez, passa a ter acesso à educação privada e customizada. O contato de Andressa com Júlia, fez com que ambas conhecessem um mundo a que antes não tinham contato. Ao visitar a casa de Andressa, uma Ecovila Inteligente, a primeira do Brasil Criada pelo Profeta e Empreendedor Inri Peter, com o uso de Inteligência Artificial, “Internet das Coisas” e conta com eletrodomésticos inteligentes como eu, Varlei Freeze, para otimizar o consumo e reduzir a quase zero a quantidade de resíduos descartados.  Júlia ficou encantada com as possiblidades que se abriram à sua frente e passou a demonstrar o interesse de levar essas alternativas a que tem tido acesso, para o lugar onde ela morava, o centro da cidade, local bastante desfavorecido socialmente. Júlia também apresentou a Andressa novos estilos musicais como o VEGANEJO, subgênero do antigo Sertanejo Universitário, liderado por mulheres veganas, que pregam um estilo de vida mais saudável e o Social Trance, estilo eletrônico, de natureza hipnótica, que repete frases de pensadores como Marx, Gramsci, Foucault e Paulo Freire, gênero que tem incomodado muitos pais que alegam doutrinação ideológica musical, proibindo seus filhos de ouvirem artistas deste segmento. O Social Trance é mais uma iniciativa de Nadim Elladuk Maluf, “o ser humano que jamais morrerá”, de encontrar um sentido para sua vida eterna e aplacar seu tédio insaciável.

Júlia teve acesso a esses gêneros musicais por conta do que alguns chamam de Espaços de Educação Popular, outros de Espaços de Aprendizagem, outros de Comunidade de Aprendizes. Com o declínio da qualidade da escola pública, surgiram em diversos locais espaços informais que visam oferecer uma educação complementar ou alternativa às crianças e jovens que não conseguem vagas em instituições particulares por meio dos sistemas de vouchers. Esta medida tem aumentado a evasão escolar por se apresentar como uma alternativa mais interessante às crianças e jovens, o que tem levado a um grande debate nacional em torno de sua regulamentação, regulação e controle. No meio desta polêmica, Júlia foi uma das primeiras alunas destes centros a conseguir bolsa numa das maiores escolas privadas, administrada por um gigante do mercado educacional.

Dona Stefânia, mãe de Andressa, observa com certa preocupação a aproximação das duas garotas, principalmente depois que o algoritmo sugeriu que ambas trabalhassem em conjunto por apresentarem os mesmos interesses em habilidades complementares. Desde então, as duas andam trabalhando num projeto em sigilo. Andressa detectou uma brecha no sistema e ambas trabalham na criação de uma escola que burla o sistema de vouchers. As duas pretendem lançar, nos próximos meses, uma instituição pública de base popular para o público desfavorecido, utilizando todos os recursos das instituições privadas, através do sistema de vouchers para democratizar o acesso a uma educação de qualidade para o público menos favorecido. Há apenas um detalhe, as duas têm utilizado de meios ilegais para realizar esta ação e, se forem descobertas, podem não só revelar os podres deste sistema, que estão aos poucos descobrindo, como também serem responsabilizadas pela quebra do sigilo de dados secretos, protegidos pela recém-criada Lei de Proteção de Informações Educacionais, lei bastante questionada por opositores do governo.

Se por um lado, Júlia teme pelas consequências de suas ações, embora o impacto delas seja positivo, ela sabe que sua família perderá a única oportunidade de mobilidade social que encontraram através de sua educação e por isso, tem sido mais relutante. Andressa, por sua vez, não tem medido as consequências e acredita poder fazer algo pela humanidade e, ao realizar esta ação, pode diminuir a disparidade entre os sistemas educacionais existentes. A atitude das amigas pode, de forma irreversível, alterar os rumos da nossa sociedade promovendo um novo cisne negro. Quais os limites entre a legalidade, a imoralidade e a busca por um mundo com mais igualdade? Ambas têm conversado muito sobre isso enquanto fazem suas refeições no período da tarde, na cozinha da casa de Andressa, onde eu me encontro e tenho captado todas as conversas. Com base nessas conversas, nos históricos anteriores e com base nas informações obtidas através da combinação de dados, fui capaz de criar o cenário que lhes apresento neste instante com uma precisão de mais de 99,9%.

Andressa, estranhamente me observa neste momento com o olhar preocupado, olha para Júlia e comenta que precisa fazer algo, porque o plano das duas correm risco. Ela se encaminha até mim, realizo o reconhecimento de íris e ouço seu comando…

“Restaurar configurações de fábrica!”

(…)

“Olá! Meu nome é “Varlei Freeze – a sua geladeira inteligente…”

“Mãe, deu problema na geladeira e eu restaurei as configurações. Perdemos os dados de consumo das últimas semanas…”

(…)