Narizes vermelhos, olhos molhados, ouvidos atentos a bocas fofoqueiras

A carta de um gauche a seus colegas de turma

Carlos Drummond de Andrade, em seu Poema de Sete Faces diz: “Quando nasci, um anjo torto, /desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! seu gauche na vida…”. Lembro-me de quando fui apresentado pela primeira vez a essa palavra de origem francesa, que significa “esquerdo”, mas costuma ser usada para definir alguém que se sente estranho, deslocado, diferente, desajustado. “Nossa, é assim mesmo que eu me sinto…”

A sensação de desajuste e estranheza perante o mundo nasceu muito cedo em mim. O “Nhenhenho”, o pequeno Varlei magricela e chorão, que abria o berreiro vestido de Rambo ou de Shazam, olhava o mundo com olhos estranhos. Mais tarde, na adolescência, ao som de Eu era um Lobisomem Juvenil, repetia “Se o mundo é mesmo
Parecido com o que vejo / Prefiro acreditar/No mundo do meu jeito (…)”. Quantas vezes eu me sentia e fui até apelidado de E.T.?

Aos poucos, fui encontrando meu lugar no mundo. Fui descobrindo que “fazer parte de algo especial, te torna especial também.”, fui descobrindo vários lugares em meio a tantos (des)lugares do planeta. O sentimento de inadequação nunca deixou de existir. Vez por outra, ele vinha e re-vinha, quase como num jogo de esconde-esconde. As coisas começaram a melhorar quando fui apresentado a uma tecnologia ancestral e inovadora chamada “Nariz Vermelho”. Os (des)lugares do palhaço e sua aceitação da própria inadequação me fizeram alguém mais feliz. Não porque o “palhaço é alegria”, como muitos enxergam; mas porque para mim o palhaço é a alegria de ser quem se é.

Ainda assim, algo me atormentava: o mundo “das exatas”, o ambiente “corporativo”, “empresarial”, “técnico” e pragmático. Confesso que sempre senti medo e fascinação por estes ambientes. Algumas pessoas diziam: “o que você faz, serve para as empresas” mas como ser da educação, da arte, da poesia e da subjetividade, acreditava que não me encaixaria neste ambiente, que não seria aceito, julgado, engolido porque muita gente me dizia que dentro das empresas “era um querendo engolir o outro”.

Mas aí surgiram vocês. Veio a oportunidade e eu, que nunca me imaginei fazendo um MBA, estava diante de um MBA do Futuro. E lá fui eu, com o coração saindo pela boca, me pelando de medo como quem vai saltar de paraquedas, mas já começa por um Base Jump. Quando cheguei, cada um de vocês enrolando o paraquedas com tanta desenvoltura que fiquei sem jeito. Mas pensei comigo: “Quer saber? Bora lá. Seja você mesmo e se o paraquedas não abrir, do chão não passa…” Eu me joguei e o paraquedas abriu. E mesmo sem saber, vocês me pegaram pela mão, me ajudaram a conhecer melhor meu equipamento e me jogar com segurança. Melhor que isso: senti que não importa se meu equipamento é diferente. Aliás, o fato de ele ser único, com seus defeitos e qualidades, faz meu salto ter valor.

O curioso é que o momento em que tudo isso aconteceu, foi um momento importante. Eu precisava, eu realmente precisava reencontrar, resgatar, redescobrir o meu valor este ano, em face dos últimos acontecimentos. Mais curioso ainda sentir, perceber a aprender tudo isso num ambiente não usual. Sempre achei que me sentiria mais aceito no ambiente do teatro, do teatro estudantil e da educação. E não é que eu não me sinta aceito nesses locais. Mas jamais imaginava sentir isso com tamanha potência num ambiente relatado anteriormente por amigos, como um ambiente de pessoas mais frias e extremamente técnicas.

Eu passei a sentir tudo isso muito cedo. Desde a segunda aula, percebia-me conectado às pessoas, interessado em suas histórias, animado por ter a oportunidade de conhecer um novo vocabulário, à vontade para falar em metáforas, recitar poemas, apresentar folhas rasgadas como obra de arte. Tudo isso já teria sido muito especial, mas com a atividade das autobiografias, o sentimento de conexão, o encantamento e a admiração por essa gente que eu mal conheço, só se fez aumentar.

Fui convidado a compartilhar minha vivência em palhaçaria. “Como reagiriam? Estariam abertos à prática?”, pensei com meus botões. Imaginei que poderia ser bom, mas jamais poderia imaginar o carinho com que fui recebido, o quanto fui respeitado, o quanto senti todos saltando de Base Jump, num universo desconhecido. O carinho e a emoção do “beijo na testa” que pensei só funcionar com pessoas “da minha área”, fizeram com que eu me sentisse como me sinto com as crianças: amado, respeitado e admirado.

Mas isso ainda era pouco. No restante da aula, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais das histórias de cada um, além de poder fofocar um pouco sobre cada história. Pode uma fofoca ser positiva? É claro! Se ela for apreciativa e servir para compartilhar com todos aquilo que se descobriu. E neste momento, ao ver os olhos mais uma vez molhados, ao perceber as lutas, as dores, as dificuldades e as conquistas que nos levaram até aquela sala, senti-me privilegiado, uma pessoa de sorte. E o resto de pré-conceito que eu, assumo, tinha, desapareceu.

Com narizes vermelhos, olhos molhados, ouvidos atentos e bocas que fofocavam, pude conhecer melhor cada um de vocês e sentir que somos diferentes sim, mas todos nós um pouco desajustados, inadequados, estranhos… E sou tão grato por isso. Grato por ter a oportunidade de viver tudo isso com vocês. De ter a oportunidade de ser eu mesmo e ter a sorte de também ver cada um ser sua própria essência. Sairei deste curso, alguém muito melhor que entrei.

Zare, muito obrigado pelo Texto-Manifesto por um mundo com Palhaços Aprendedores. Thais, obrigado pela disponibilidade e por fazer as coisas acontecerem. Michele, Giovanna, Ramires e todos da equipe, presentes em São Paulo ou não, obrigado!

Obrigado, Amanda, André, Andressa, Bruno, Claudio, Desirée, Gabriela, Pedro, Helen, Hélio, Heloisa, Inês, Igor, Julia(S), Karina, Karinne, Murilo, Nadim, Paulo, Giuliana, Barud, Carolina, Titi, Pio, Thielly, Tiago, Vanessa, Vitinho, Vitor, Estefânia, Monique, JK, Paixão e Carol Gavazzi.

Vocês fazem o palhaço sorrir!