Depois do “Jump in a Lab” da aula passada, quando visitamos a Everis, estamos de volta à Casa, ou QG da Turma de São Paulo. É sempre bom voltar ao ninho, principalmente em aulas como a da Vânia e da Lourdes. O tema da aula: “Convivência Produtiva”. Já havíamos sido avisados de que nesta aula escreveríamos um contrato, um tratado ou um pacto de convivência, que nos acompanharia durante o restante da Jornada do MBI.

Quando chegamos, descobrimos que a dupla Lourdes e Vânia, uma parceria tão poderosa quanto Hortência e Paula, Bebeto e Romário, havia feito uma tabelinha e resolveram mudar o nome para “Manifesto de Convivência Produtiva”. Eu adorei a ideia pois adoro as possibilidades de aprendizado, compromisso e engajamento que os manifestos produzem. Lembro-me quando tive contato com o Kit Educação Fora da Caixa, onde o Alex Bretas, um de meus mentores, discorre sobre o tema:

“Escrever um manifesto é fazer um chamado para a ação, seja para si mesmo ou voltado para alguma coletividade. Dos clássicos como o Manifesto Comunista até os manifestos tipográficos inspiracionais que se disseminaram pela internet, o que se mantém constante é o caráter provocativo que desafia nossas crenças de um modo ´direto ao ponto´.

(…)

Há séculos os manifestos têm sido utilizados para comunicar a essência de desejos de mudança de diversas comunidades. Zach Sumner diz da seguinte forma:

´Por fazer as pessoas perceberem a fenda que existe entre os princípios manifestados e a sua realidade atual, o manifesto desafia premissas, estimula o engajamento e provoca transformação’. (Leia este texto completo no Medium do Alex Bretas)

 

Dito isto, fica claro qual era a nossa tarefa durante a aula. Como chegamos até lá, pouco importa. Afinal, como disse Vânia: “Este é um encontro único no planeta e jamais se repetirá”. Ou seja, seria pouco proveitoso da minha parte descrever todo o processo até a criação de nosso Manifesto. Prefiro, em vez disso, fazer um percurso poético até chegarmos a ele e prosseguirei um tanto ainda depois. Creio que, no exato momento em que me encontro, preciso fazer um exercício poético. Além disso, seria pouco útil que eu fizesse apenas um memorial descritivo do encontro. Prefiro então meu tecido lírico para refletir, assimilar e extrapolar o conteúdo das aulas. Peço licença, acompanhe-me só se quiser. Lá vou eu para meu mergulho e sei que será profundo

“Permita-me iniciar com uma história – disse a Griô – Quando os indígenas subiam a Serra do Mar, no Período da Colonização, muitas vezes diziam que precisavam parar um pouco, pois a caminhada fora deveras veloz e a alma ficara para trás. Assim acontece conosco: nosso corpo chegou, mas a alma não; ficou pra lá. Façamos agora nossa aula chegar…

Foi então que lembrei-me de Bilac, a quem convoco agora:

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma povoada de sonhos eu tinha…[i]

 

Ecoa voz de Inês dentro de mim. “De lá pra cá, choramos pra cacete…”. Eu, muitas vezes, fatigado e triste, encontrei forças nas palavras de meus colegas de turma. E se a pergunta é “O que te inspira?”, minha resposta não pode ser diferente de “Vocês me inspiram”.

 

“Inspirar é pirar pra dentro.
Eu pego agora o que vem de fora
e jogo pro centro…”

 

Este “jogar pra dentro”, deixar queimar e cuspir pra fora um fogo recriado, como um dragão criativo, tem me feito muito bem, tem me dado a sensação de que possuo algum valor. Como Emicida diz em “Casa”:

 

“É quem tem valor, versus quem tem preço..”

 

 

E “(…) é diante do humano que a gente se humaniza.” Com “a alma de sonhos povoada…” as relações vão se fortalecendo. Mas Doutora Sônia, uma dessas mestras que encontrei na vida costumava me dizer que

“Laranjeira não dá banana”

 

porque “toda relação é uma relação de corresponsabilidade.”

 

                “TODA relação é uma relação de Corresponsabilidade.”

 

É importante repetir para que eu nunca me ESQUEÇA:

 

                “… toda relação é UMA relação de corRESPONSABILIDADE.”

 

E você PODE, ou/e SÓ pode dar o seu melhor e não se pode dar para o outro aquilo que o outro não pode aceitar.

 

“(…) bananeira só dá banana. Laranja não…”

 

Fique também atento para perceber quando “azedou o pé do frango”, cuidando sempre para estar consciente do que se faz com a fala. Como diz Cecília em seu Romanceiro da Inconfidência:

 

“Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai palavras,
sois o vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois audácia,
calúnia, fúria, derrota…
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora…
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil como o vidro
e mais que o são poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam…”[ii]

 

Quando estamos em dúvida, a pergunta que devemos fazer é: “O que queremos conservar?”

Eis a nossas escolhas:

Alegria

Respeito
Empatia
Confiança
Amizade

 

Manifesta-se então em palavras “Ai palavras, ai palavras…”

 

Sobre um erro, uma reflexão. Percebemos, dias depois, que havia sido escrito “CONVIVÊNICA”, mas como “Aprendedores”, passamos a crer que o erro é uma oportunidade. Por isso, descobrimos que ICA é uma trombeta de madeira utilizada pelos Índios Bororo. Podemos considerar então que ConvivênICA foi a forma que encontramos que Manifestar e Comunicar todos os dias, como se pudéssemos trombetear para o mundo nossas intenções e torna-las verdade e ação todos os dias.

 

… e chegou Dona Jacira…

 

Mulher-Terra, Árvore-Mãe, tecedora de fios e palavras, contadora de histórias e fazedora de sangrias. Seu pisar na sala despertou-me a vontade do abraço e o medo da proximidade, vergonha de minha pequenez. Ela é útero que deu luz a versos e sons e rimas. Pedi seu abraço com a vergonha de uma criança, ganhei não só o dela, mas o de toda minha ancestralidade perdida. Revivi meu pai, que assim como seu marido, morreu no dia em que nasceu. Meus tios, meus avós do Macuco, vindos de Ceará, Paraíba, Minas e sei lá de onde mais, tirados de África ou do meio da aldeias e matas dessa terra. Sua fala “Eu tinha um livro sangrando dentro de mim”, abriu-me um buraco, tocou-me no peito, fez-se outra vez o encanto. Dona Jacira abriu um silêncio no meu peito.

 

um chão
de terra
um pé de feijão
fios e letras
palavras
desejo
o dedo que esfrega a mão
supõe coceira
depois descobre
e ódio é vulcão
os filhos vão
voltam
estendem os braços
“vai, véia! é sua vez”
mesmo sangrando
“Café” se fez…

 

Acabou… Uma foto, um encontro no bar. Um pouco de papo, um abraço em todos, outro aperto em Dona Jacira. O desafio da turma cumprir o escrito à risca. Manifestou-se em mim o desejo de meu próprio Manifesto de Inovação Pessoal.

 

não sou só…
…não sou só palhaço…
…só professor…
…aprendedor…
…artista…
…de negócios…
…criativo…
Inovador.
sou empresa-homem
que quebra
e quebrou
que sonha
e sonhou
que cria
na esperança
de um dia
que breve seja
esteja melhor
do que agora estou
que poesia
e encanto
sorriso e abraço
beijo na testa
paguem a conta
da festa que se fez
do carrinho de mercado
do churrasco de domingo
da conta vencida
do boleto atrasado
e que meu canto
não seja lido
como lamúria
é mais um grito
é rejeição
com fúria
desejo de mudança
vontade de transformação
é guerra declarada
por situação errada
– brado por inovação-
Não sou só.
Ofereço
Olhar criativo
Que julgam incrível
Visão Metafórica
Métrica Intangível
Trabalho com preço
Valor Bem Maior.
Não sou só
aceito a mudança
espero
MEREÇO
entrego
aceito
confio
e agradeço.
Me movo
Inovo
Do duro
Da casca
Ao mais mole do ovo.

Seja empregado

emPrecário
empreendedor
empresário
no emprego
prego
desprego
apego
e desapego
do medo
do salário
atrasado
do investimento
perdido
do job negado
da resposta esperada
da venda perdida
Não sou só.
Sou só
desejo
de inovação.

 

Obs: O texto de hoje vai sem fotos da aula. Prefiro que vejam o invisível. Desculpa, Ramirez! Os créditos delas serão sempre seus…

[i] Poema No meio do Caminho, de Olavo Bilac

[ii] Poema Romance LIII ou das Palavras Aéreas de Cecília Meireles